Mudança de planos

Trânsito, obras, caos. O tempo abafado e um relógio que anda acelerado contrariando a tudo e a todos. Em meio ao seu trajeto matinal para o trabalho Otto pensa em sua vida. A reunião das nove, o cliente teimoso, o chefe canalha, as pausas hipócritas para o café, os prazos curtos e as exigências intermináveis, mas sua conta bancária e o seu carro do ano não lhe permitiam reclamar. Além do mais Otto tinha um conforto, no fim do dia tinha ela. Linda, os cabelos castanhos ondulados caindo pelos ombros e os braços mais abrasadores deste mundo. E nesta manhã quente ele decidira, voltaria mais cedo para casa.

Saindo do metrô Sonia ajeita a gola do uniforme e corre para chegar a tempo no seu turno na cafeteria. “-Maldito calçamento, paga-se tanto imposto e eles são incapazes de manter um passeio decente. Desse jeito não há salto que agüente!” Pensou ao suspirar enquanto batia seu cartão olhando para os “scarpins” surrados. E decidiu que a partir de então usaria sapatilhas.

Longe dali um jovem observa uma bela mulher que cuida sozinha do jardim. Ela devia ter mais de quarenta, mas ainda era radiosa. Os movimentos delicados com que ela lidava com as plantas e os cabelos desmontando-se de um coque falso transpiravam uma sensualidade quase juvenil. Naquele instante ele decidira, desistiria de Sonia.

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