Descobri

que o que me incomoda não é ter visto meu pai morrer.

Isto não me provocou nada de ruim afinal, ele não agonizou.

Naquele momento ele perdeu todo o pavor da morte e se entregou, libertou-se do sofrimento físico e do medo do desconhecido e com aquele olhar tentou me ensinar que a morte pode ser enfim uma coisa boa.

O meu trauma mora no horror do rosto da minha mãe, agonizante com a morte do homem que ela só fez amar a vida inteira.

Ali naquele desespero morava o abandono do amor e o medo de viver dali em diante sem ele.

A visão da minha mãe foi para mim a personificação da impotência e a aparição de todo o desalento que uma mulher apaixonada pode sofrer.

Esta aparição imprimiu em mim o medo de passar por isso também.

Isto sim,  incomoda.

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